Corpo, Memória, Oralidade e Tradição
Todo corpo tem
memória.
Essa frase pode soar
estranho, mas vamos por partes.
Pra começar, vamos
analisar o significado da palavra "memória". Segundo o Dicionário
Online de Português (dicio.com.br) o significado da palavra MEMÓRIA é:
Faculdade de reter ideias, sensações, impressões, adquiridas anteriormente. Aí
nos perguntamos como é que o corpo é capaz de fazer isso, mas é, e é mais comum
do que se possa imaginar.
Existem inúmeras
evidências, pesquisas e trabalhos acadêmicos/científicos que provam que não
apenas o cérebro que é capaz de guardar informações, mas o nosso corpo também.
Sendo assim, o corpo também é registro, assim como a oralidade e a
escrita.
O mundo
contemporâneo tem por uma das suas principais características o rompimento com
o passado, a crença que o novo é sempre melhor do que o velho. Gasset ,
filósofo, argumenta que o que diferencia o homem do animal não é a
inteligência, mas a capacidade de reter memória. Alguns animais se mostram
muito inteligentes, porém, por não conseguir reter informações, não conseguem
aprender e evoluir. A humanidade tem uma bagagem cultural que se configura na
tradição; é perigoso desprezá-la. “O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro
de seus erros, a longa experiência de vida decantada gota a gora durante
milênios (…) Romper a continuidade com o passado, querer começar de novo, é aspirar
a descer e plagiar o orangotango“. Já para o filósofo grego
Platão, a transmissão da tradição seria resultante de um processo de cultivo,
comparável àquele que cultiva e registra suas experiências nesse jardim da
escritura para desfrutá-las em sua velhice.
As memórias corporais e a oralidade
são elementos muito importantes para a construção e manutenção de uma
sociedade, principalmente quando se trata de tradição. Segundo o Wikipedia
a palavra "tradição" veio do latim "traditio, tradere" que
significa "entregar", "passar adiante" e é a continuidade
ou permanência de uma doutrina, visão de mundo, costumes e valores de um grupo
social ou escola de pensamento. Ao nível da etnografia, a tradição revela
um conjunto de costumes, comportamentos, memórias, rumores, crenças, lendas,
música, práticas, doutrinas e leis que são transmitidos para pessoas de uma
comunidade, sendo que os elementos passam a fazer parte da cultura.
Por muito tempo, as tradições foram
transmitidas oralmente, de geração para geração, por meio de contas, lendas e
cantigas. Corpo e oralidade são aspectos que sempre foram fundamentais de
nossa vida em sociedade, pois é por meio dela que nos socializamos,
construímos conhecimentos, organizamos nossos pensamentos e experiências,
ingressamos no mundo, assim, ela amplia nossas possibilidades de inserção e de
participação nas diversas práticas sociais. A oralidade se tornou um meio
de conexão entre o passado e o presente . Mas com a chegada da internet e com o
avanço das novas tecnologias, essa forma de comunicação e ensinamento está
ameaçada. A Cultura oral atualmente é desprezada pelo ensino
formal. Mesmo com toda riqueza e diversidade da cultura popular, as
escolas excluem de seus currículos o ensinamento da transmissão oral de
tradições.
Hoje existe um projeto de lei
que tem como objetivo garantir a valorização da tradição oral e o ensino
desse saber nas escolas. É o Projeto da Lei Griô (http://www.leigrionacional.org.br/) que pretende implementar
uma política nacional para o reconhecimento e incentivo da oralidade. A expressão 'Griô' é de origem africana, e denomina um guardião da memória
da história oral de um povo ou comunidade. A palavra é usada para designar as
pessoas que têm a missão de receber e transmitir ensinamentos como um fio
condutor entre gerações e culturas.

Com toda essa
discurso sobre corpo, registro, tradição e memória, fica claro a importância da
legitimação da memória corporal e da oralidade, mas com isso, não se pode
subestimar a importância da passagem do texto oral para a escritura pois isso
não representa uma perda de vitalidade, em função de uma ausência da voz viva.
O texto escrito, por sua vez, também não é portador de uma maior fidelidade a
algo que foi comunicado na origem de sua produção, mas ambos estão em constante
relação de troca, entre si e com os acontecimentos históricos, criando uma
memória viva, portadora da tradição, que se faz presente no aqui e agora
através da performance, ato vivo de comunicação.
Referencias:
https://dicio.com.br
GASSET, Jose Ortega y: A Rebelião Das
Massas
PLATÃO: Diálogos (Fedro), México: Editorial Porrúa, 1996
https://pt.wikipedia.org/