sábado, 4 de fevereiro de 2017

Teatralidade contemporânea / Cultura popular

 Corpo, Memória, Oralidade e Tradição 


Todo corpo tem memória. 

Essa frase pode soar estranho, mas vamos por partes.

Pra começar, vamos analisar o significado da palavra "memória". Segundo o Dicionário Online de Português (dicio.com.br) o significado da palavra MEMÓRIA é: Faculdade de reter ideias, sensações, impressões, adquiridas anteriormente. Aí nos perguntamos como é que o corpo é capaz de fazer isso, mas é, e é mais comum do que se possa imaginar. 

Existem inúmeras evidências, pesquisas e trabalhos acadêmicos/científicos que provam que não apenas o cérebro que é capaz de guardar informações, mas o nosso corpo também. Sendo assim, o corpo também é registro, assim como a oralidade e a escrita. 

O mundo contemporâneo tem por uma das suas principais características o rompimento com o passado, a crença que o novo é sempre melhor do que o velho. Gasset , filósofo, argumenta que o que diferencia o homem do animal não é a inteligência, mas a capacidade de reter memória. Alguns animais se mostram muito inteligentes, porém, por não conseguir reter informações, não conseguem aprender e evoluir. A humanidade tem uma bagagem cultural que se configura na tradição; é perigoso desprezá-la. “O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro de seus erros, a longa experiência de vida decantada gota a gora durante milênios (…) Romper a continuidade com o passado, querer começar de novo, é aspirar a descer e plagiar o orangotango“. Já para o filósofo grego Platão, a transmissão da tradição seria resultante de um processo de cultivo, comparável àquele que cultiva e registra suas experiências nesse jardim da escritura para desfrutá-las em sua velhice. 

As memórias corporais e a oralidade são elementos muito importantes para a construção e manutenção de uma sociedade, principalmente quando se trata de tradição. Segundo o Wikipedia a palavra "tradição" veio do latim "traditio, tradere" que significa "entregar", "passar adiante" e é a continuidade ou permanência de uma doutrina, visão de mundo, costumes e valores de um grupo social ou escola de pensamento. Ao nível da etnografia, a tradição revela um conjunto de costumes, comportamentos, memórias, rumores, crenças, lendas, música, práticas, doutrinas e leis que são transmitidos para pessoas de uma comunidade, sendo que os elementos passam a fazer parte da cultura.

Por muito tempo, as tradições foram transmitidas oralmente, de geração para geração, por meio de contas, lendas e cantigas. Corpo e oralidade são aspectos que sempre foram fundamentais de nossa vida em sociedade, pois é por meio dela que nos socializamos, construímos conhecimentos, organizamos nossos pensamentos e experiências, ingressamos no mundo, assim, ela amplia nossas possibilidades de inserção e de participação nas diversas práticas sociais. A oralidade se tornou um meio de conexão entre o passado e o presente . Mas com a chegada da internet e com o avanço das novas tecnologias, essa forma de comunicação e ensinamento está ameaçada.  A Cultura oral atualmente é desprezada pelo ensino formal. Mesmo com toda riqueza e diversidade da cultura popular, as escolas excluem de seus currículos o ensinamento da transmissão oral de tradições. 

 Hoje existe um projeto de lei que tem como objetivo garantir a valorização da tradição oral e o ensino desse saber nas escolas. É o Projeto da Lei Griô (http://www.leigrionacional.org.br/)  que pretende implementar uma política nacional para o reconhecimento e incentivo da oralidade. A expressão 'Griô' é de origem africana, e denomina um guardião da memória da história oral de um povo ou comunidade. A palavra é usada para designar as pessoas que têm a missão de receber e transmitir ensinamentos como um fio condutor entre gerações e culturas.

Logo Lei Griô Nacional


Com toda essa discurso sobre corpo, registro, tradição e memória, fica claro a importância da legitimação da memória corporal e da oralidade, mas com isso, não se pode subestimar a importância da passagem do texto oral para a escritura pois isso não representa uma perda de vitalidade, em função de uma ausência da voz viva. O texto escrito, por sua vez, também não é portador de uma maior fidelidade a algo que foi comunicado na origem de sua produção, mas ambos estão em constante relação de troca, entre si e com os acontecimentos históricos, criando uma memória viva, portadora da tradição, que se faz presente no aqui e agora através da performance, ato vivo de comunicação.


Referencias: 

https://dicio.com.br
GASSET, Jose Ortega y: A Rebelião Das Massas
PLATÃO: Diálogos (Fedro), México: Editorial Porrúa, 1996
https://pt.wikipedia.org/

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